Químicos perigosos no dia a dia: onde estão e como reduzir a exposição

Vivemos rodeadas de produtos. Produtos de higiene, de limpeza, cosméticos. A grande maioria contém substâncias químicas perfeitamente seguras e reguladas. Mas existe um grupo específico de químicos perigosos que tem vindo a ser estudado com crescente atenção pela comunidade científica e pelas autoridades regulatórias europeias: as chamadas Substâncias que Suscitam Elevada Preocupação, conhecidas pela sigla SSEP.

Não se trata de alarmismo. Trata-se de conhecer o que usamos, perceber o que a ciência e a regulação europeia dizem sobre isso e fazer escolhas mais informadas sempre que possível.

O QUE SÃO AS SUBSTÂNCIAS QUE SUSCITAM ELEVADA PREOCUPAÇÃO (SSEP)?

A legislação europeia, através do Regulamento REACH, identifica como SSEP as substâncias que podem:

  • Causar cancro (carcinogéneas);
  • Causar alterações genéticas (mutagénicas);
  • Ser prejudiciais para a fertilidade e o desenvolvimento do feto (tóxicas para a reprodução);
  • Acumular-se no organismo e no ambiente (persistentes e bioacumulativas);
  • Interferir com o sistema hormonal (desreguladores endócrinos).

Dentro deste grupo, os desreguladores endócrinos são talvez os mais estudados. São substâncias que podem imitar ou bloquear as hormonas naturais do organismo e, como o sistema hormonal regula o metabolismo, a reprodução, o crescimento, o desenvolvimento de órgãos e o sistema imunitário, as consequências potenciais são imensas.

O problema não é a exposição pontual a uma única substância. É o chamado efeito cocktail — a exposição simultânea e cumulativa a centenas de substâncias diferentes, ao longo de anos, cujos efeitos combinados a legislação ainda não consegue regular na totalidade.

DESDE QUANDO É QUE OS QUÍMICOS PERIGOSOS NOS AFECTAM?

A exposição começa mesmo antes de nascermos. Algumas destas substâncias atravessam a placenta durante a gravidez, podendo afectar o desenvolvimento fetal com consequências que se prolongam pela vida adulta.

Na infância e adolescência: As crianças e adolescentes são particularmente vulneráveis. Quanto mais nova a criança, maiores os riscos associados à exposição a desreguladores endócrinos. O sistema endócrino está em pleno desenvolvimento e é mais susceptível à interferência de compostos externos. Os estudos associam a exposição prolongada a algumas destas substâncias a puberdade prematura, alterações no desenvolvimento e perturbações de comportamento.

Os produtos de higiene e beleza são uma das principais fontes de exposição nesta fase — champôs, condicionadores, maquilhagem, cremes e desodorizantes são frequentemente formulados com compostos como parabenos e ftalatos.

Na idade adulta: A exposição acumula-se. Nas nossas casas estamos diariamente expostos a estas substâncias através de múltiplas fontes — vestuário, produtos de limpeza, embalagens de alimentos, mobiliário, electrónica. Os potenciais efeitos para a saúde incluem perturbações hormonais e reprodutivas, mas também alergias, obesidade, diabetes tipo II, perturbações do sistema imunitário, doenças cardiovasculares e alterações no desenvolvimento cerebral.

QUAIS OS QUÍMICOS PERIGOSOS MAIS COMUNS EM CASA?

  • Ftalatos: presentes em artigos de plástico macio (PVC), têxteis sintéticos, brinquedos, cortinas de chuveiro, recipientes para comida e fragâncias. Alguns ftalatos são classificados como tóxicos para o sistema reprodutivo;
  • Bisfenol A, S e F (BPA, BPS, BPF): o BPA encontra-se em embalagens plásticas rígidas, revestimentos interiores de latas de conserva e recibos de papel térmico. É libertado com facilidade em contacto com calor, ácidos e gorduras. Estima-se que mais de 90% dos cidadãos ocidentais tenham já esta substância no sangue e tecidos. Suspeito de causar alterações irreversíveis no sistema hormonal e nervoso. Proibido em biberões na UE desde 2011. Os substitutos BPS e BPF têm estrutura molecular semelhante e podem ter efeitos equivalentes;
  • PFAS (substâncias per e polifluoroalquiladas): presentes em revestimentos antiaderentes, têxteis impermeáveis, embalagens de fast food e alguns cosméticos. São extremamente estáveis e não biodegradáveis — acumulam-se no organismo e no ambiente. Associadas a níveis elevados de colesterol, doenças inflamatórias do intestino, cancro testicular e renal, e hipertensão na gravidez. O PFOA é classificado pela UE como cancerígeno e tóxico para a reprodução;
  • Retardadores de chama bromados: presentes em electrónica, brinquedos, estofos e colchões. Podem perturbar o sistema hormonal e ter efeitos neurotóxicos. Já foram encontrados no leite materno humano e em múltiplas espécies animais, o que evidencia a sua capacidade de bioacumulação.

COMO REDUZIR A EXPOSIÇÃO A QUÍMICOS PERIGOSOS?

Eliminar completamente a exposição a compostos sintéticos não é realista nem necessário. O objectivo é reduzir a exposição cumulativa de forma gradual e sustentável.

Em casa:

  • Prefere recipientes de vidro, inox ou cerâmica para guardar e aquecer alimentos;
  • Evita aquecer comida em embalagens de plástico;
  • Substitui progressivamente os utensílios antiaderentes por alternativas em inox, ferro fundido ou cerâmica;
  • Ventilar regularmente os espaços e remover o pó com aspirador com filtro de partículas ou pano húmido — o pó doméstico é uma das principais vias de exposição a retardadores de chama.

Na alimentação:

  • Reduz o consumo de enlatados ou opta por versões com indicação “BPA free”;
  • Prefere alimentos frescos a processados em embalagens plásticas;
  • Evita o contacto de alimentos quentes com embalagens descartáveis.

Nos produtos de higiene e cosmética:

  • Lê os rótulos — os ingredientes estão listados por ordem decrescente de concentração;
  • Aprende a identificar os compostos mais estudados: parabenos (terminam em “-paraben”), ftalatos (DBP, DEP, DEHP) e BPA;
  • Uma ferramenta útil para fazeres esta leitura de forma simples é a app INCI Beauty, que permite pesquisar produtos e obter informação detalhada sobre os seus ingredientes. A análise é baseada na legislação europeia em vigor — o que a torna especialmente relevante para utilizadoras em Portugal e na União Europeia. A Plena não tem qualquer parceria comercial com esta app — é uma sugestão editorial baseada na sua utilidade prática.

No vestuário e têxteis:

  • Evita comprar peças com indicação de serem impermeáveis ou antinódoas — frequentemente tratadas com PFAS;
  • Prefere produtos com rótulo ecológico europeu.

EM RESUMO:

  • As SSEP são substâncias reconhecidas pela legislação europeia como potencialmente prejudiciais para a saúde humana e o ambiente;
  • Os efeitos estudados vão muito além do sistema hormonal — incluem cancro, alterações genéticas, perturbações imunitárias, neurológicas e cardiovasculares;
  • A preocupação científica centra-se na exposição cumulativa e no efeito cocktail, não na exposição pontual a um único produto;
  • Pequenas mudanças graduais fazem diferença. Começar pelos produtos que usas diariamente é o passo mais acessível;
  • A informação é a melhor ferramenta.

Fontes: Regulamento REACH da União Europeia; projecto LIFE ChemBee — Eco-embaixadores para a Europa, financiado pelo Programa LIFE da União Europeia (quimicos.zero.ong)

Este artigo tem carácter informativo. Para questões de saúde específicas, consulta sempre um profissional de saúde qualificado.


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